Desde 1575, monges beneditinos portugueses foram enviados às terras brasileiras para avaliar a possibilidade concreta da fundação de um mosteiro em terras dalém mar. O local indicado seria a Cidade de São Salvador da Bahia. devido aos insistentes pedidos da população local.
Em 1580, reunido no Mosteiro de Santo Tirso, o Capitulo Geral da Congregação Lusitana da Ordem de São Bento, após prudente análise e avaliação do relatório elaborado pelos emissários, aprovou a fundação de um Mosteiro de São Bento na Bahia, o qual viria a ser o primeiro de todo o Novo Mundo e um dos primeiros fora da Europa.
Os monges fundadores, em número de nove, chegaram à Bahia na Páscoa de 1582, oriundos do Mosteiro de São Martinho de Tibães, Casa Geral da Congregação Lusitana, fixando-se num terreno fora da cidade, onde já havia uma pequena Ermida dedicada a São Sebastião. A população soteropolitana, que tanto desejava a presença beneditina, alegrou-se com a chegada dos monges.
No ano de 1584, Mosteiro foi elevado a condição de Abadia com o Título de São Sebastião da Bahia, mas, popularmente, ficou conhecido como Mosteiro de São Bento da Bahia. As características físicas do edifício monástico assim como suas atividades começavam a ser estruturadas e definidas, concorrendo para isso trabalho dos monges e a colaboração de benfeitores como Francisco Barcellon e Gabriel Soares, Catarina Paraguaçu, dentre outros.
Desde então as atividades dos monges se desenvolveram de forma gradativa e contínua. O aperfeiçoamento e implementação sistemática dos trabalhos ocorreu em diversas áreas: divina liturgia; canto gregoriano e polifônico sacro; artes (música, arquitetura, pintura, escultura); agricultura e pecuária; trabalho intelectual (estudos, pesquisas, ensino); serviço religioso (catequese, pregação, realização dos sacramentos, aconselhamento espiritual); trabalho de assistência social.
Em 1586, a Ermida de Nossa Senhora da Graça com o edifício anexo foi doada aos beneditinos pela Sra. Catarina Paraguaçu, funda-se o Mosteiro de Nossa Senhora da Graça como dependência da Abadia Baiana. Com a consolidação do Mosteiro da Bahia, logo surgiram solicitações de novas fundações por parte da população de outras cidades da colônia. Os monges Baianos partem para fundar novos mosteiros nas cidades de Olinda (1586), Rio de Janeiro (1590), São Paulo (1598).
No ano de 1596, o Mosteiro da Bahia recebe o título de Arquicenóbio do Brasil. Cria-se a Província Brasileira da Congregação Lusitana, tendo como Casa Geral a Abadia de São Sebastião da Bahia. Outros mosteiros são elevados a condição de Abadia: Olinda e Rio de janeiro (1596), São Paulo (1635). Em 1598, o então Governador Geral, Sr. Francisco de Souza, doa aos monges baianos a Ermida de Nossa Senhora do Monte Serrat, que é acrescida de um pequeno edifício anexo, surgindo o mosteirinho, também como dependência do Arquicenóbio.
Em 1624, a Cidade de Salvador foi invadida por tropas holandesas e o Mosteiro foi transformado em quartel militar holandês. Os monges refugiaram-se nos engenhos do Recôncavo até a retirada dos holandeses, quando a vida monástica retoma o seu curso com o regresso dos religiosos e a recuperação das instalações do Mosteiro como também sua ampliação.
No século XVIII, quando uma grande peste assolou a Cidade, exterminando grande número de pessoas, parte do Mosteiro foi transformado em enfermaria para o atendimento dos doentes.
No século XIX, em 1827, a então Província Brasileira ganha autonomia em relação à Congregação Lusitana, tornando-se a Congregação Brasileira da Ordem de São Bento, tendo como Casa Geral a Abadia da Bahia. A partir de 1855 o Mosteiro de São Bento da Bahia e os demais mosteiros brasileiros viveram dias de trevas quase sendo extintos por falta de religiosos, devido à perseguição empreendida pelo governo imperial, que fechara os noviciados das Ordens Religiosas no Brasil, aos moldes de Pombal, em Portugal.
Na segunda metade do século XIX, os monges foram arautos da abolição da escravatura no Brasil. Em 1867, o Abade Geral da Bahia determinou a libertação de todos os escravos da Ordem de São Bento no Brasil, assumindo as conseqüências deste ato: o comprometimento considerável da economia do Mosteiro, limitando suas atividades (como por exemplo, a interrupção das obras de conclusão da igreja e das dependências do edifício do Mosteiro), e ainda a hostilidade e a perseguição política dos grandes senhores da época, que tentavam, a todo custo, sufocar o movimento abolicionista. Também no século XIX, novamente o Mosteiro cedeu parte de suas instalações, transformadas em enfermaria, para abrigar o feridos e mutilados na guerra de Canudos.
Com a queda do Império e a Proclamação da República, o Abade Geral da Bahia, Frei Domingos da Transfiguração Machado, escreve ao Papa Leão XIII, pedindo o envio de monges europeus para assegurar a existência da Ordem Beneditina em terras brasileiras. Acolhido o pedido, os monges alemães da Congregação de Beuron foram enviados, chegando ao Mosteiro da Bahia em 1899. Retoma-se a vida conventual com novo fervor, assim como novos foram os costumes monásticos trazidos pelos Bouronenses. Em 1915, um grupo de monges baianos parte para a fundação de um Mosteiro em Trinidad Tobago, atual Abadia do Monte São Bento, hoje vinculada aos monges norte-americanos.
No início do século XX, o governo baiano ameaçou demolir o edifício monástico com seu templo para atender ao novo plano urbanístico da cidade, abrindo uma larga avenida (Av. Sete de Setembro). Esse crime cultural contra a memória e a história da Bahia foi evitado graças a reação da comunidade monástica, apoiada expressivamente pela população soteropolitana, que através da imprensa local fizeram recuar o governador e o seu funesto projeto.
Na Bahia, durante o período da repressão militar, o Mosteiro de São Bento foi uma das poucas vozes que, publicamente, ousaram defender a liberdade política, a liberdade de imprensa, o respeito aos direitos humanos, a luta pela anistia, denunciando abusos como a tortura e o desaparecimento de presos políticos .
A situação política e a realidade social levaram os monges a desenvolver um trabalho social mais construtivo e menos assistencialista, objetivando a organização das comunidades carentes da periferia da Cidade, a fim de que pudessem reivindicar seus direitos básicos junto aos poderes públicos, assim como a formação de lideranças comunitárias e a estruturação de associações de moradores de onde surgiriam projetos e iniciativas para melhorar a qualidade de vida dessas mesmas comunidades.
No ano de 1982, o Santo Padre conferiu a Igreja do Mosteiro da Bahia o título de Basílica Menor de São Sebastião. Em 1998, o Papa João Paulo II honra o Mosteiro baiano com o título de Arquiabadia da Congregação Beneditina do Brasil, por ser ele o Mosteiro que deu origem a Congregação Brasileira.
Grata ao passado e com o olhar firme em direção ao futuro, na Santa Páscoa de 2002, a Comunidade Monástica baiana comemorou, com alegria, os 420 anos de fundação de seu Arquicenóbio. Do alto da montanha onde se encontra o Mosteiro, os monges, quais sentinelas sobre os muros da cidade*, de dia e de noite, velam pelos seus habitantes, louvando o nome do Senhor, lembrando a todos as maravilhas realizadas por Ele; oferecendo a Deus um Sacrifício de Louvor por meio da Oração e do Trabalho, “para que em tudo seja Deus glorificado” (Regra de São Bento).
* “Sobre ti, Jerusalém, sobre teus muros, Eu coloquei sentinelas, nem de dia nem de noite se calarão... ”( Isaías 62,2)
Arquiabadia de São Sebastião
Um Lugar onde História, Cultura e Espiritualidade se Encontram .









